Apresentamos aqui dois excerto da crónica de D. João I.
“(…)
E se o Senhor Deos a nós outorgasse o que a alguus escrevendo nom negou, convem a saber, em suas obras clara certidom da verdade, sem duvida nom soomente mentir do que sabemos mas ainda errando, falso nom queriamos dizer; como assi seja que outra cousa nom é errar salvo cuidar que é verdade aquelo que é falso. E nós, engando per ignorancia de velhas escrituras e desvairados autores, bem podiamos ditando errar; porque, escrevendo homem do que nom é certo, ou contará mais curto do que foi, ou falará mais largo do que deve; mas mentira em este volume é muito afastada da nossa voontade. Ó! com quanto cuidado e diligência vimos grandes volumes de livros de desvairadas linguagees e terras! e isso meesmo púbricas escrituras de muitos cartários e outros logares, nas quaes, depois de longas vegilias e grandes trabalhos mais certidom aver non podemos da conteúda em esta obra. E seendo achado em alguus livros o contrairo do que ela fala, cuidae que nom sabedormente mas errando muito, disserom taes cousas.
E se o Senhor Deos a nós outorgasse o que a alguus escrevendo nom negou, convem a saber, em suas obras clara certidom da verdade, sem duvida nom soomente mentir do que sabemos mas ainda errando, falso nom queriamos dizer; como assi seja que outra cousa nom é errar salvo cuidar que é verdade aquelo que é falso. E nós, engando per ignorancia de velhas escrituras e desvairados autores, bem podiamos ditando errar; porque, escrevendo homem do que nom é certo, ou contará mais curto do que foi, ou falará mais largo do que deve; mas mentira em este volume é muito afastada da nossa voontade. Ó! com quanto cuidado e diligência vimos grandes volumes de livros de desvairadas linguagees e terras! e isso meesmo púbricas escrituras de muitos cartários e outros logares, nas quaes, depois de longas vegilias e grandes trabalhos mais certidom aver non podemos da conteúda em esta obra. E seendo achado em alguus livros o contrairo do que ela fala, cuidae que nom sabedormente mas errando muito, disserom taes cousas.
Se outros per ventuira
em esta cronica buscam fremosura e novidade de palavras, e nom a certidom das
estorias, desprazer-lhe-á de nosso rrazoado, muito ligeiro a eles d’ouvir e nom
sem gram trabalho a nós de ordenar. Mas nós, nom curando de seu juizo, leixados
os compostos e afeitados razoamentos, que muito deleitom aqueles que ouvem,
ante poemos a simprez verdade que a afremosentada falsidade. Nem entendaes que
certificamos cousa, salvo de muitos aprovada e per escrituras vestidas de fé;
doutra guisa, ante nos calariamos que escrever cousas falsas.
(…)”
(…)”
(...)
"Do alvoroço que foi na cidade cuidando que matavom o Mestre, e como aló foi
Alvoro Paez e muitas gentes com ele.
O Page do Mestre que estava aa porta, como lhe disserom que fosse pela vila segundo
já era percebido, começou d'ir rijamente a galope em cima do cavalo em que estava, dizendo altas vozes, bradando pela rua:
– Matom o Mestre! matom o Mestre nos Paços da Rainha! Acorree ao Mestre que
matam!
E assi chegou a casa d’ Alvoro Paez que era dali grande espaço.
As gentes que esto ouviam, saíam aa rua veer que cousa era; e começando de falar u~us
com os outros, alvoraçavom-se nas vontades, e começavom de tomar armas cada u~u como melhor e mais asinha podia. Alvoro Paez que estava prestes e armado com ~ua coifa na cabeça segundo usança daquel tempo, cavalgou logo a pressa em cima du~u cavalo que anos havia que nom cavalgara; e todos seus aliados com ele, bradando a quaesquer que achava dizendo:
– Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre, ca filho é deI-Rei dom Pedro.
E assi bradavom el e o Page indo pela rua.
Soarom as vozes do arroido pela cidade ouvindo todos bradar que matavom o Mestre; e
assi como viuva que rei nom tiinha, e como se lhe este ficara em logo de marido, se moverom todos com mão armada, correndo a pressa pera u deziam que se esto fazia, por lhe darem vida e escusar morte. Alvoro Paez nom quedava d'ir pera alá, bradando a todos:
– Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre que matam sem por quê!
A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de veer. Nom
cabiam pelas ruas principaes, e atrevessavom logares escusos, desejando cada u~u de seer o primeiro; e preguntando u~us aos outros quem matava o Mestre, nom minguava quem responder que o matava o Conde Joam Fernandez, per mandado da Rainha." (...)
Alvoro Paez e muitas gentes com ele.
O Page do Mestre que estava aa porta, como lhe disserom que fosse pela vila segundo
já era percebido, começou d'ir rijamente a galope em cima do cavalo em que estava, dizendo altas vozes, bradando pela rua:
– Matom o Mestre! matom o Mestre nos Paços da Rainha! Acorree ao Mestre que
matam!
E assi chegou a casa d’ Alvoro Paez que era dali grande espaço.
As gentes que esto ouviam, saíam aa rua veer que cousa era; e começando de falar u~us
com os outros, alvoraçavom-se nas vontades, e começavom de tomar armas cada u~u como melhor e mais asinha podia. Alvoro Paez que estava prestes e armado com ~ua coifa na cabeça segundo usança daquel tempo, cavalgou logo a pressa em cima du~u cavalo que anos havia que nom cavalgara; e todos seus aliados com ele, bradando a quaesquer que achava dizendo:
– Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre, ca filho é deI-Rei dom Pedro.
E assi bradavom el e o Page indo pela rua.
Soarom as vozes do arroido pela cidade ouvindo todos bradar que matavom o Mestre; e
assi como viuva que rei nom tiinha, e como se lhe este ficara em logo de marido, se moverom todos com mão armada, correndo a pressa pera u deziam que se esto fazia, por lhe darem vida e escusar morte. Alvoro Paez nom quedava d'ir pera alá, bradando a todos:
– Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre que matam sem por quê!
A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de veer. Nom
cabiam pelas ruas principaes, e atrevessavom logares escusos, desejando cada u~u de seer o primeiro; e preguntando u~us aos outros quem matava o Mestre, nom minguava quem responder que o matava o Conde Joam Fernandez, per mandado da Rainha." (...)
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| -- D. João I -- |

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